Artigo: A Grande Arte de Celso Barros

  Data e Hora: 11/05/2017 19:05:28

Há cerca de treze anos, vi o Doutor Celso Barros Coelho pela primeira vez. Por uma daquelas imposições curriculares, fui obrigado a assistir a uma sessão de julgamentos no Tribunal de Justiça do Piauí e, por uma sorte tremenda, nesse dia, a tribuna estava ocupada pelo famoso jurista, já octogenário. A aparência frágil foi substituída por uma voz de trovão e uma retórica precisa e ilustrada. Em uma inacreditável coincidência, o magistrado que havia proferido a sentença, cuja anulação era objeto do recurso, abriu a porta de trás da sala da Câmara Criminale começou a conversar com um dos desembargadores que iria participar do julgamento. Celso Barros admoestou o juiz, que soltou um quase inaudível “Desculpe, professor!” e retirou-se com um sorriso amarelo. Ficamos todos estupefatos! Nós, jovens estudantes, fascinados pelo imenso poder das autoridades e potestades judiciais, testemunhamos um advogado anular a sentença e botar abaixo a Corte. Abriu-se, para mim, uma janela na parede do tempo... Eu sempre ouvira falar de que no passado os advogados agiam com galhardia e honradez, que não temiam as autoridades públicas, tendo como senhora apenas a Lei, mas meu coração nunca pode acreditar antes de os olhos verem.

Celso Barros Coelho, órfão de pai muito jovem e menino pobre do interior do Maranhão, veio para o sul do Piauí com seus irmãos todos menores de idade e sua mãe. Posteriormente, aos 16 anos, mudou-se para Teresina, tendo tomado assento no seminário menor, onde iniciou-se sua densa formação cultural. Nos anos 40, recusou-se a prosseguir os estudos religiosos em Roma para se fixardefinitivamente na cidade e auxiliar financeiramente a família, o que foi possível graças a seu empenho como professor no colégio Diocesano.

Sua carreira no magistério foi plena. Foi professor emérito da UFPI e da UNB. Foi ainda Deputado Estadual cassado pelo golpe de 1964 e Deputado Federal por duas legislaturas. É um dos maiores intelectuais piauienses, com dezenas de títulos publicados, que vão da crítica literária à filosofia do direito. Mas é a advocacia, a grande arte desse ilustre piauiense, que segue em plena atividade, após mais de sessenta anos de foro.

O grande Georges Bernanos dizia: “Ao longo dos séculos, os Mestres, os Mestres de nossa espécie, nossos Mestres abriram as grandes avenidas do espírito que vão de uma certeza a outra, as estradas reais”. Em nenhuma profissão são tão vivas essas verdades quanto na advocacia. A “era dos prodígios” é uma farsa. Boa parte da atual barbárie que se abateu sobre nossa profissão vem do desprezo à tradição e da crença, ingênua, de que é possível tudo reformar, própria dos que não compreendem que as transformações sociais (e também jurídicas) são limitadas pela própria natureza humana.

A advocacia é uma arte cumulativa, em quecada mestre de seu tempo soma uma contribuição à cadeia eterna, que vai de Cícero a Jacques Vergè, passando pelos glosadores e pelos renascentistas do direito bolonhês. Ao usarmos as vestes talares, comungamos com eles desses séculos de estudo, devoção e coragem. Participamos, enfim, da trajetória desses homens, que formam hoje nosso infinito repositório. Mas para que essa cadeia não se quebre é preciso que existam profissionais que personifiquem os valores que fizeram de nossa profissão a mais importante do mundo livre. Como marinheiros que procuram as lanternas flutuantes que os levarão de volta à praia, nós, jovens advogados, olhamos para nossos antecessores na esperança de obter a luz. Nós, piauienses, procurando por lanternas, encontramos no colega Celso Barros um gigantesco farol. Farol cravado na rocha e cujo fogo nunca se apaga! Desejar-lhe “vida longa”, no alto dos seus 95 anos, seria redundante. Deixo apenas o “Muito Obrigado!” do estudante que assistia à sua sustentação oral no fundo da sala de sessões, há treze anos.

Milton Gustavo Vasconcelos. Advogado. Mestre e doutorando em Ciências Criminais pela PUC-RS.


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